sexta-feira, 12 de março de 2010

lembro-me

Não sei porque é que ainda me lembro de ti. Não sei se é da tua expressão, da tua mão, do teu sorriso, do teu olhar ou simplesmente da tua voz. Sempre estiveste lá mas nunca te tinha visto como daquela vez e não sei porque é que te vi de maneira diferente. Talvez tenha sido o cheiro do mar ou os passos que dei enquanto caminhava para um lado qualquer. Pode ter sido a minha fala irrequieta que teimava em não cessar ou apenas tudo. Não sei o porquê, sou sincera quando digo que não encontro um motivo para que me lembre.
Depois levas-me o pensamento em sonhos, onde viajo para qualquer lado em que sempre estás. Até quando respiro acordada entras na minha cabeça sem aviso nem contexto para que o faças. Invades cada pedaço de mim seja em que lugar for, a que hora for. Não encontro sentido para que tal aconteça, mas acontece. Até nos momentos em que vejo as horas, me pergunto se saberás que horas são. Lembro-me de ti até agora enquanto os nossos mundos correm por caminhos que imagino diferentes.
Não tenho explicação para que me lembre de ti. Aliás, nem tenho uma razão que me que faça procurar uma explicação, porque essa explicação não existe. Sempre te vi e sei que sempre te verei, apenas não sei de que forma. Seja pela tua expressão, pela tua mão, pelo teu sorriso, pelo teu olhar ou pela tua voz, a questão é que me lembro de ti, sempre, por seres tu.

quarta-feira, 10 de março de 2010

excepção

Sei bem que este espaço é palco de muitos gritos meus contra o mundo, contra as pessoas. Mas há excepções, há motivos pelos quais me mantenho aqui. Há vontade em mim de viver a sorrir porque alguém faz por isso. Sentir-me bem comigo mesma, é sentir-me bem com tudo. Faltar, falta todo um caminho... Mas os primeiros passos estão dados e um dia hei-de conseguir chegar lá ao fim.

Aquele sorriso inerente a alguns rostos é o que faz com que aqui me mantenha. A mais pura cumplicidade numa expressão vale mais do que mil e uma palavras. O acreditar nesta meninice encantada de sonhos de princesas sempre felizes, faz com que o mundo ganhe outra cor e eu acredite que sou capaz. Capaz de encontrar alguém assim, sonhador. Capaz de encontrar alguém que sorria e cujo sorriso faça valer uma vida.

Afinal, as excepções valem muito mais que tudo o resto.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

voltar à praia

Olho para fotografias de outros dias e vejo que tomámos caminhos diferentes. Enquanto tudo parecia ser capaz de nos aproximar, agora o areal está mais extenso e é mais difícil chegar ao mar. Descubro tudo aquilo de que queria abdicar e digno-me a vivê-lo com agitação incessante. São rumos que se constróem com o passar dos minutos e que, quando somados, acabam por fazer diferença. Estou apenas a levar outro caminho que não aquele que pensei tomar, porque não fazes parte dele. Saí num apeadeiro por aí e explorei-o até ao mais ínfimo pormenor e é isso que agora faço. Recordações são o que te traz até aqui, nessa tua constante calma e lucidez exasperante que nunca consegui ter.
É como o temporal anunciado que teima em não aparecer e chega o momento em que duvidamos da sua existência. Aquela altura em que o mar já não engole a areia, apenas se afasta para que ela tenha espaço para respirar. Rotas distantes em que não somos o mar que vai e vem sobre a areia, mas antes o mar e a areia. Mesmo quando tudo se assusta com a vinda do temporal, ele decide não vir porque descobriu um outro caminho. Foi, apenas, por outro lado. Deixou de querer abater-se sobre nós e passou a querer ir num outro trilho. Afinal, talvez ele nunca tenha querido vir para cá. Agora, enquanto vai para outro lado que não este, assola tudo por onde passa. Os danos que não causou aqui causa noutro lugar, vive os momentos. A areia já não é um com o mar.
São como as fotografias. Fotografias que antes vi caminharem juntas no mesmo sentido mas que agora vão em direcções diferentes. Não opostas, mas diferentes. Quem sabe, talvez um dia voltem a encontrar-se mais à frente. Pode ser que em vez de mudar de rumo, tenhamos apenas tomado um atalho. Agora a areia é areia e o mar é o mar, pode ser que um dia voltem a ser a praia.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

frio de angústia

Tenho demasiada angústia para que possa exprimi-la. É extravassador o quanto invade sonhos, transportando mil e um quereres que custam em ser reais. Depois há as mil e uma voltas por entre lençois que apenas trazem momentos inquietantes até na hora de descanso. Não sei que mais tentar nem o que mais preciso dar. Não vejo inconstância, mas talvez tenha existido. Não sei. Chegou o tempo em que apenas não há mais tempo, porque a angústia toma conta de todo o tempo que possamos ter. É assim que, de malas prontas, me destrói o facto de saber que tenho de ir embora sem sequer ter conseguido dormir direito. Espero encarar a viagem como uma jornada em branco, um momento de que pretendo desfrutar ao máximo, tendo até a capacidade de rebentar a escala. Preciso, porém, de esquecer a angústia enorme que nem consigo desabafar sobre. Até sou das pessoas que gostam de falar, mas agora não existem palavras que possam espelhar tudo aquilo que quero dizer. Por isso chegam os pesadelos, por isso chegam as noites em que o sono não é o bastante para me fazer dormir que nem uma pedra. Mesmo quando me perco dentro da minha estufa que transborda calor, sinto frio. Tenho frio, muito frio. Esta angústia sobre a qual nem consigo escrever, não me deixa o coração a transbordar de raiva e a fervilhar de calor. Deixa-me antes como que nua e despida, com um coração partido e totalmente gelado. Talvez seja por isso que, depois de ter já as malas arrumadas, me pergunte se, mesmo com tanto agasalho, não irei eu ter ainda mais frio.