sexta-feira, 23 de outubro de 2009

tenho de andar de saltos altos?

Estava a regressar a casa no comboio quando me espantei com o mundo (fique contente, professor). Dei por mim a ouvir um barulho que sempre ouvi, que sempre lá tinha estado, mas que nunca associei. Era aquele "tloc, tloc, tloc" inconfundível que, no momento, percebi serem as senhoras a movimentar-se com os seus sapatos de saltos altos. Saio do comboio e vou até à escada rolante com extrema agilidade. Olho para aqueles que ainda caminhavam sobre a plataforma e espanto-me uma vez mais (de novo contente, professor): para trás começam a ficar mulheres, infinitamente carregadas, todas elas com um "tloc, tloc, tloc" que as persegue. Não me parecem ter nada a mais que eu senão esse mesmo "tloc, tloc, tloc". Então porque é que não chegam tão rapidamente à escada quanto eu? Dei por mim a olhar para jornalistas de desporto, mulheres, e espantei-me (mais uma vez, professor). Todas elas caminhavam com um "tloc, tloc, tloc" apressado, quer levassem tripés às costas, quer não. Olhei para tal situação durante alguns minutos e perguntei-me: será que para eu poder ser jornalista também tenho de andar com um "tloc, tloc, tloc"?
Lembro-me de uma vez ter tentado fazê-lo. Armei-me em espertinha e toca de fazer "tloc, tloc, tloc" para a faculdade ainda para mais num dia em que teria de trabalhar afincadamente. Carreguei tripés às costas, câmaras, coloquei tudo a postos, sempre no "tloc, tloc, tloc". Resultado: ao fim de hora e meia desejava caminhar silenciosamente de novo. Lembro-me de outra vez ter tentado fazê-lo. Fui até ao local da reportagem e não havia lugar para estacionar, portanto tive de deixar o carro muito longe do sítio onde se desenrolava a acção e lá foi "tloc, tloc, tloc" a subir e a descer. Resultado: quando cheguei aonde deveria estar desejava caminhar silenciosamente de novo. Duas vezes, duas singelas vezes que me fizeram com que não repetisse a experiência. Mas, depois de hoje me ter espantado continuamente, deverei eu voltar a insistir no "tloc, tloc, tloc"?
Reparei numa senhora que, por me ter distraído com um jornal, conseguia caminhar à minha frente no seu "tloc, tloc, tloc". Contudo, passados cinco segundos já ia a tapar-me o caminho. Decidi então levar um passo mais lento e reparei que a passada da senhora não era firme. Pelo contrário, era desengonçada e cansada. Imaginei-lhe uma cara de sofrimento enquanto eu, no meu caminhar que levitava, até sorria para o ar. Mas ela lá continuava, "tloc, tloc, tloc". Pouco depois perdi a paciência. O barulho daquelas botas no chão começava a martelar na minha cabeça e lembrei-me que, segundo o que vi, para ser jornalista, também eu tenho de martelar a cabeça das pessoas. Coloquei um pé fora do passeio e ultrapassei a senhora, desconcertada com aquela ideia. Chegada ao carro olho para trás, por cima do ombro. Lá ao fundo ainda vem a senhora com o seu "tloc, tloc, tloc", mas agora também ela atrás de outra senhora igualmente "tloc, tloc, tloc". Será que se aparecesse mais uma mulher faria fila? Fiquei a espantar-me (a última vez para ficar contente, professor) com a maneira de como caminhavam: achei que poderiam cair a qualquer momento.
Deixem-me ser sincera: quero ser jornalista, mas não quero ser "tloc, tloc, tloc". Eu, nas minhas simples botinhas pretas, sem adornos e lantejoulas, sou capaz de caminhar melhor que umas "tloc, tloc, tloc". Posso não ter metade do brilho, mas tenho uma passada firme e decidida, que segue sempre o seu caminho sem hesitar, rumo a um objectivo. Levo tripés, levo câmaras. Levo um simples microfone e um gravador, ou até mesmo só um bloco de notas. Levo o que for preciso, mas não levo o "tloc, tloc, tloc". Caminho apenas porque me decido a caminhar, sem nunca ficar desengonçada. Ainda que possam não ter tanto adorno que chame à atenção, as minhas botinhas pretas levam-me aos mesmos caminhos onde umas "tloc, tloc, tloc" levam quem as usar. Eu apenas chego mais depressa e de uma forma mais convicta. Ainda precisarei de ouvir um "tloc, tloc, tloc" para ser jornalista?
(Menos quando caio nas escadas da estação porque chove...)

2 comentários:

Cátia B. disse...

ameixaaa, adorei :D

Irina disse...

opah!!!
AMEI!
o professor deveria ler...xD