quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sonhando

Não quero nem saber. Vou dormir, esquecer o mundo e desligar. É o que há a fazer, nada mais. As soluções já foram todas experimentadas e nenhuma resultou. Agora clica-se no botão com convicção e tenta-se a custo que a máquina do pensamento desligue. Apenas não percebo porque é que ela não o quer fazer!
Odeio ainda ter o teu sabor na boca, como recordação inquieta de momentos que já passaram... Não quero lembrar-me de mais nada porque já bastam as saudades que tenho. Afinal o tempo não volta atrás, apenas corre sempre no mesmo sentido.
Não quero nem saber. Apenas continuo, sonhando.


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

fotografias em mim

Fotografias, como tantas imagens que quis preservar mas que não consegui. Palavras que estariam antes expressas num pedaço de papel brilhante e que dariam menos trabalho a recuperar... Mas sempre faltou o objecto maravilha que fosse capaz de estar nos sítios certos à hora certa, a maior parte das vezes sem razão, porque nunca se consegue prever quando é necessária a objectiva de uma câmara... Culpa da boa imprevisibilidade da vida, da inconstância saudável que agora faz com que que não existam fotografias, por mais que as queira ter.
Estranho é que me lembro de todos os segundos que queria ter atados num papel para onde pudesse olhar. Lembro-me de todos, de cada um deles melhor que o outro... Mas, não será assim desnecessária a presença de tal objecto? Afinal consigo lembrar-me de tudo o que me quero lembrar, sem que seja fixo, imóvel e ensaiado. Não tenho um sorriso forçado com uma bonita paisagem de fundo num pequeno quadrado, tenho-me antes numa imagem completa a olhar o horizonte naquela praia que tudo diz e sou ainda capaz de ter novamente o cheiro do mar salgado e a textura da areia rija junto à agua. Não tenho um pequeno quadrado com a minha horrível cara de choro, tenho o sabor amargo de cada lágrima custosa de cair, ou feliz, aliás, todas elas... e nunca fui fotografada a chorar. Não tenho um pequeno quadrado com a cara de todas as pessoas que repetidamente me entoaram os parabéns, tenho as suas expressões que muito transmitiram ao longo de uma noite inesquecível...
Parece verdade, parece então que as fotografias são apenas um acessório para quando a memória começa a ficar fraca. Não sei se daqui a alguns anos terei a lucidez para recordar todos os cheiros, todos os lugares, todas as texturas... Aí, talvez gostasse de ter fotografias. Mas não existem, já nem há possibilidade de existirem. Mesmo assim, posso tentar pintar em palavras tudo o que senti e vivi, mas há algo cá dentro que me diz não ser preciso. Afinal sou eu, sou como sou... Como poderia alguma vez esquecer-me daquele abraço que num dia longíquo me causou um arrepio na espinha? Ainda agora me lembro... e é impossível pintar isso. Sou eu, apenas.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

vaivém

É assim, quando menos espero que tu vens. Voltas a aparecer, de rompante e de mansinho, tudo ao mesmo tempo, tudo de uma só vez. Naquele dia em que viajaste, eu soube que irias voltar, levasse o tempo que levasse... Não sei se iria querer-te de volta como te tive, mas sei que iria querer-te. Quis, sempre o quis, mas nunca consegui adivinhar o momento de o querer mais. Mas chegou, parece que decidiste chegar a hora e agora que aqui estás aqui te tenho, bem dentro, bem fundo de mim. Vieste sem que te pedisse, vieste apenas porque quiseste... Eu, oh eu... Eu não esperava que viesses agora, mas estou bem com isso.
É que sempre que vens é diferente, chegas e trazes o ar fresco daquele mar que conhecemos. Sopras como o vento quente daquele dia de verão e aqueces tudo em volta. É assim a tua presença, é assim que gosto de quando chegas. Porque sabes enganar-me, porque sabes fazer-me achar-te longe quando afinal tão perto estás. Ainda me lembrava da forma de como pisavas a areia, silencioso e quieto, perdido em mil pensamentos. Agora posso recordá-la de novo, porque me deixas fazê-lo.
É no sossego reconfortante que agora estou, quando me levas a voar o sentimento libertino é o maior. Não sabia por onde virias, quando viesses, mas caminhaste em frente de braços estendidos e tudo isso marcou. Na altura em que os abres e me envolves naquele abraço tenho novamente a certeza, a certeza de que, mais dia menos dia, voltas a ir embora e virás outra vez, depois, sem que eu o espere. Porque és assim, porque sou como sou. Porque neste vaivém entre ir e voltar, a vida passa e caminha, subtil e encantante, porque ondula, porque desliza sobre o mar. E eu, eu vou contigo quando vais e vens.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

...adeus

Nem quando te digo adeus te esforças por te despedir de mim.
É chegado o momento em que deixo de ter forças para continuar por esta estrada que não me leva a caminho nenhum. Por mais que tente vislumbrar o fundo do trilho, só vejo uma luz branca que me cega a vista e não me deixa adivinhar o que me espera. E é assim, é assim que desisto. Tentei todas as formas de caminhar, mas nenhuma resultou... Agora digo o adeus, digo o adeus que mais me custa dizer, mas não há outra forma de continuar.
Derramo uma lágrima, aquela que prometi ser a última, e amarro as minhas vontades. Está tudo dito, perdi a argumentação que alguma vez possa ter tido. Adeus, se quiseres voltar a ver-me sabes onde me encontrar...
E voltarás a procurar-me? Quererás ver-me de novo um dia? Não sei, nem sei se tu o sabes... Disse-te adeus, e tu, que me disseste? Nada... E continua a vida, continua o respirar difícil em dias de frio gélido. Continuo eu aqui sem nada de novo, com muito a menos, sem saber de ti... Terminou, de vez. A verdade nua e crua é essa mesmo: mesmo quanto te digo adeus, não te interessa despedir-te de mim.