quarta-feira, 6 de abril de 2016

perdidos

Em muitos momentos dou pelas recordações, pelas imagens e pelos sentimentos. Os pensamentos voam, na procura de algo que explique a segurança que nunca existe. Há uma incapacidade total de te entender e é por isso que te tornas tão forte, ao seres tão unicamente estranho.
Todos os dias decoro e esqueço os teus traços, para me permitir descobri-los novamente no dia seguinte. Há sempre um recanto na tua pele que nunca vi e a novidade é absolutamente magnífica de tão banal e minúscula.
Sei do cais de onde nos atirámos, com medo de naufragar para longe das fugidias ondas que testemunhavam momentos singulares e sem repetição. Às vezes penso que seria bom voltar lá, mas sem voltar atrás. Porque cada volta nos dará mais segundos, sempre diferentes, com novos sentires e olhares, mas com cada vez mais crescimento de um coração que se faz mais homem todos os dias.
Poderia explicar a plenitude de descobrir sempre mais de ti, de ter sempre mais de ti, de sentir sempre mais de ti. Não o faremos porque sempre temos mais, porque cresceremos mais e porque queremos mais. Por isso és mais, tu sabe-lo.
"A vida diz-nos sempre que as coisas mais improváveis são as que fazem mais sentido". Lembraste?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

voz, 10julho


É a forma como colocas os lábios. A doçura pequena com que pronuncias as palavras e terminas os plurais. É o teu olhar profundo que reflecte aquilo que vês... é o teu pensamento dito em silêncios tão teus que o conforto de os ter é mais natural que o ar. É a meninice que dás num sorriso puro e inocente.
É o homem em que te tornas quando puxas de um cigarro. É a convicção que trazes presente em tudo o que dizes. É a vivacidade que colocas nos movimentos. É a forma desajeitada com que caminhas e a tentativa de parecer sempre mais forte.
É a energia que carregas e os ensinamentos que constróis. São os momentos em que ganhas a coragem de ter a iniciativa. São as tuas mãos quando procuram o meu toque. São os abraços calados. São os olhos nos olhos. São a confiança cega e todo o medo do mundo. É aquilo que flutua no meio de nós e que mais ninguém vê. É a insegurança repleta de certeza. A incredulidade mascarada do maior que pode existir.
É a forma brilhante em que és tão menino. É a forma brilhante em que és tão homem.
Será a forma brilhante em que dizes seres meu?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

sabes?

Sabes, a vida tem mesmo a capacidade de nos surpreender. De nos dar tudo quando achamos não merecer mais nada, de nos pôr molas debaixo dos pés que nos fazem saltar para tocar nas nuvens e provar o seu sabor. A vida é capaz de nos mostrar o quão pode ser imprevisível e doce, todos os dias. Que os momentos mais difíceis são e serão sempre suplantados por outros tão mais fortes, tão mais verdadeiros.
Sabes, acho que os momentos em que não nos sentimos nós são apenas a preparação efémera de que precisamos para aproveitar o que importa. O estímulo desconfortável para que possamos ser capazes de dar valor ao que é genuíno e imperfeitamente perfeito. São precisos os momentos em que desabo, a magnitude de sentires horríveis que me dão. Tenho a convicção de que, depois desses mesmos momentos, vem a recordação de ti, do que és, do que constróis, do que dás e do que me fazes querer oferecer. Da magnitude do bom que fazes despoletar em mim e me mostra que, todos os dias, é importante viver.
Sabes, não faço ideia do caminho da vida... nunca farei. Mas tenho aprendido com ela, sempre que posso, sempre que ela mo deixa. Sei, por isso, que o meu coração te enaltece, uma e outra vez, com alma e com razão. Com sentido, que só existe porque é inconsciente. Tal como tu, que não tens motivo nem conhecimento, apenas certezas inconstantes de que o caminho será sempre o certo, enquanto o fores trilhando.
Sabes, posso dizer tudo que nada passará de palavras escritas, umas atrás das outras, a procurar ser reais. Nunca conseguirei dar-lhes valor, mas ainda assim teimo e tento, repetidamente, expressar-te a ti mesmo. Para que te valorizes, para que acredites mas, sobretudo, para que nunca tenhas a mais pequena dúvida de que aquilo que não sabemos dizer, escrever e até pensar, é sempre mais verdadeiro do que tudo o que possamos dizer.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Vocês.

Sorriu. Sentiu as lágrimas que se avolumavam naquela caixinha entreaberta, mesmo ali, atrás dos olhos. Mirou o infinito e então falou:

São pessoas altruístas. O outro está sempre em primeiro lugar e fazer mais pelos outros é algo que não conseguem controlar. Esquecem-se muitas vezes deles mesmos. Não se importam com o cansaço, nem com coisas negativas que possam vir a sentir, enquanto o outro precisa deles. E o outro precisa sempre deles, porque há vários outros... e a todos respondem com prontidão, vontade e empenho tal que não é possível não os invejar.
Têm uma verdade absoluta lá contida, que transparece em cada partícula da atmosfera que os rodeia. Tudo lhes provém do coração. Confiam e entregam-se à pura arte do dar sem querer receber. São genuínos, como não há outros. 
Já viram o melhor e o pior de mim. Viram o pior de mim e mesmo assim permanecem. Não vão embora.

Sorriu de novo e respirou fundo, para que aquela gota que se esgueirou para o canto do olho não caísse. Foi assertiva consigo mesma, cimentando o seu pensamento: "Viram o pior de mim e mesmo assim permanecem". Isso tinha de lhe querer dizer alguma coisa. Tinha de ser a força para afastar as espirais descontroladas em que, muitas vezes, se colocava sem motivo. Não havia motivo, não podia haver motivo, não com estas pessoas. Continuou:

O caminho foi construído com uma transparência sem propósito. O caminho foi e continua a ser traçado de forma genuína, com o momento. 
É a verdade dos sentires, do conhecimento, dos saberes que partilhamos que está sempre inerente ao percurso que, a cada minuto, fazemos juntos.  Tem de ser assim, inconscientemente. Não porque o queremos, mas porque só assim o sabemos ser. 
Com verdade, com transparência, com amor. Com a permissão de sentir o que quer que seja, sem julgamentos.
São pessoas altruístas, sim. Verdadeiras, genuínas! Que ficam, todos os dias, onde quer que estejam.

Quando se calou, o seu pensamento divagou por segundos. Mais uma vez soube que lhes seria eternamente grata e que, por mais que tentasse, nunca saberia explicá-lo a ninguém. Afinal de contas, a pergunta tinha sido apenas:
Porque é que essas pessoas são tão especiais para ti?
E uma vez mais ficou muito longe de uma explicação que sabe que nunca conseguirá dar. As palavras não lhes fazem jus.

Os sons do coração são a mais bela melodia de amor que lhes poderei atribuir.